11 jul 2026 12:05

Alisson Amador lança “Quarto Universo” com 12 faixas gravadas em Heliópolis

Alisson Amador lança “Quarto Universo” com 12 faixas gravadas em Heliópolis

O compositor e multiartista paulistano Alisson Amador chegou ao segundo álbum da carreira com um projeto inteiramente caseiro: doze faixas autorais, todos os instrumentos tocados por ele mesmo, tudo gravado no seu apartamento em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. O disco se chama “Quarto Universo” e carrega um recado claro contra a lógica do efêmero que domina a produção cultural na era das redes sociais.

Um músico, muitos instrumentos

Amador não chegou à multifuncionalidade por acidente. A relação com os instrumentos começou aos dez anos, quando pegou um teclado pela primeira vez. De lá pra cá, passou pelo banjo, mergulhou no rock com a guitarra, tocou percussão na orquestra do Instituto Bacarelli e estudou violão na Emesp, a Escola Municipal de Música de São Paulo. É uma trajetória de mais de duas décadas acumulando repertório técnico.

Com mais de 500 composições no catálogo, o artista tem clareza sobre o que o move. Gravar o álbum em casa não foi limitação – foi escolha deliberada. “Com esse tempo, vou gravar o disco em casa”, conta ele, depois de questionar o retorno real que a produção compulsiva para as redes sociais trazia para sua carreira.

Homenagens a Ailton Krenak e Zahy Tentehar

O álbum não é só música instrumental: carrega posicionamento. Entre as doze faixas, duas prestam homenagem a personalidades indígenas centrais no debate contemporâneo sobre identidade e território. Ailton Krenak, filósofo e líder Krenak, já havia inspirado Amador no primeiro trabalho, “Silêncio no Caos”, de 2021, quando o artista musicou uma poesia do pensador.

Zahy Tentehar, ativista e artista do povo Tentehar, entrou na trajetória de Amador de forma mais visceral. Ele a conheceu numa peça de teatro que tratava da relação dela com a mãe. “É algo muito profundo e eu saí de lá em prantos”, relata. A homenagem no disco é, portanto, algo além do reconhecimento – é resposta emocional convertida em canção.

Resistência ao imediatismo

“Quarto Universo” chega num momento em que a indústria fonográfica independente enfrenta a pressão por lançamentos contínuos e fragmentados. Singles, playlists, conteúdo para Stories – a lógica das plataformas favorece o fluxo ininterrupto em detrimento da obra coesa. Amador vai na direção oposta. Um álbum com estrutura, identidade e profundidade, produzido dentro de casa, em uma das maiores favelas da América Latina.

O gesto tem peso simbólico. Heliópolis, com cerca de 200 mil habitantes, raramente aparece como centro de produção artística nas narrativas culturais da cidade. “Quarto Universo” coloca o bairro no mapa – não como cenário, mas como estúdio.

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