Dívida dos clubes dobrou em dois anos. O futebol brasileiro precisa de lei fiscal

As Copas do Mundo deixam uma lição que se repete a cada quatro anos: não importa onde o craque jogue durante a temporada – Premier League, Bundesliga, La Liga ou Ligue 1 -, na hora do torneio máximo ele volta para a seleção do país que o formou. Essa lógica coloca os clubes locais no centro de tudo. E é exatamente aí que o Brasil patina.
A conta que não fecha
As receitas dos clubes brasileiros cresceram 35% nos últimos dois anos. Parece bom. O problema é que os gastos avançaram 40%, puxados por um salto de 140% nos investimentos em contratações. O resultado: a dívida consolidada do futebol nacional foi de R$ 7,8 bilhões em 2022 para mais de R$ 14 bilhões neste ano. Dobrou. Em dois anos.
O padrão é antigo e destruidor. Um cartola ambicioso compra reforços milionários, conquista um campeonato, vira ídolo – e entrega o clube à beira da insolvência para o sucessor resolver. Esse ciclo virou norma, não exceção.
A resposta: fair play à brasileira
Para tentar deter esse ciclo, a CBF criou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a Anresf, como órgão autônomo de fiscalização financeira. O modelo se inspira no fair play financeiro europeu – a mesma lógica que disciplinou clubes na Inglaterra e na França. Uma espécie de lei de responsabilidade fiscal para o futebol.
Caio Resende, primeiro diretor da agência, resumiu o objetivo: evitar que receitas e despesas sigam em trajetórias divergentes como as dos últimos anos. A implementação começa com um período de transição para acerto de dívidas antigas, sanções inicialmente leves. Mas o caminho está traçado: má gestão poderá custar pontos na tabela – ou o rebaixamento.
SAF: promessas e contradições
Desde 2021, o Brasil tem outro modelo à disposição: a Sociedade Anônima do Futebol, a SAF, inspirada em experiências europeias. Os resultados são mistos. O Cruzeiro reorganizou as finanças após a transição. O Vasco da Gama foi parar na Justiça em disputa com o sócio principal da SAF. O Botafogo virou campeão brasileiro e da Libertadores depois de criar o modelo societário – mas chegou a ser colocado à venda em anúncio de jornal após turbulências na holding Eagle, que controla parte do clube.
Na Série A, os clubes associativos ainda são maioria. Flamengo e Palmeiras, as equipes mais consistentes nos últimos anos, seguem nesse formato. Entre as SAFs estão Botafogo, Cruzeiro, Vasco da Gama, Bahia e Atlético Mineiro, cada um em estágio diferente de maturidade.
O que está em jogo
Mais do que equilibrar balanços, o que está em disputa é a capacidade do Brasil de continuar produzindo talentos em escala. Sem clubes financeiramente saudáveis, as bases enfraquecem, as categorias de formação perdem investimento e o pipeline de jogadores para a seleção se ressente. A Copa do Mundo expõe o produto final. Mas é nos estádios do interior, nas categorias sub-17 e sub-20, que tudo começa.
As novas regras da Anresf não resolvem o problema sozinhas. Mas impõem um freio que o futebol brasileiro nunca teve de forma efetiva. É um passo pequeno para o jogo, um passo necessário para o país.





