Copa do Mundo 2025 bate recorde de gols desde 1958, mas os números escondem algo mais

Três gols por jogo. Essa é a média registrada nesta Copa do Mundo – a mais alta desde a edição de 1958, realizada na Suécia. O torneio expandido prometia mais futebol, e entregou. Mas a pergunta que fica no ar é inevitável: estamos vendo qualidade real ou apenas uma tempestade estatística favorável?
Os gols que o modelo não esperava
A métrica de gols esperados – o chamado xG – oferece um ângulo revelador. Ela calcula, com base em fatores como ângulo, distância e parte do corpo usada, quantos gols deveriam sair de uma determinada sequência de finalizações. Pois bem: o torneio acumula 109 gols marcados contra um xG total de 90. São 19 gols a mais do que a qualidade das chances sugeria.
Isso pode parecer detalhe técnico. Não é. Ao simular os 889 chutes do torneio 100 mil vezes, a probabilidade de chegar a essa marca de 102 gols – excluindo gols contra – é de apenas 2%. Para ter dimensão: era tão provável chegar a 80 gols (bem abaixo do xG) quanto ao número que estamos vendo agora.
Quem ou o que está inflando o marcador
As hipóteses são várias. Uma delas aponta para diferenças de nível entre as seleções: a Alemanha marcou sete contra Curaçao na estreia, com um elenco repleto de campeões europeus diante de um goleiro que atua na segunda divisão americana. Esse tipo de confronto inevitavelmente distorce a média.
Outra linha de raciocínio mira na bola oficial do torneio, a Adidas Trionda. O ex-goleiro inglês Joe Hart apontou que ela parece chegar às mãos dos arqueiros mais rápido do que eles antecipam – afetando a coordenação motora em frações de segundo. Ele citou o gol de abertura de Lionel Messi contra a Argélia e a finalização de Kylian Mbappé diante do Senegal como exemplos de lances em que o goleiro – no caso, Edouard Mendy, campeão da Liga dos Campeões – não conseguiu ajustar o corpo a tempo.
Os cabeceios? Representam 17% dos gols, praticamente igual a 2022 (16%) e menor que 2018 (19%). Chutes de fora da área? Mesma proporção que no último Mundial. Nenhuma explicação isolada fecha a conta.
O que isso significa para o torneio
A taxa de superação do xG nesta Copa – 21% a mais de gols do que o modelo previa – é inédita quando comparada a todas as edições anteriores com ajuste de volume. Nenhum torneio chegou perto disso.
Claro, o alerta é necessário: ainda estamos na fase de grupos. A variância tende a se comprimir à medida que os jogos ficam mais disputados e os adversários mais equilibrados. Mas por ora, o que se assiste é uma edição fora da curva – no bom sentido. Mais gols, mais emoção, mais razão para continuar assistindo. E se os Estados Unidos queriam usar esta Copa para vender o futebol ao público local, a oferta chegou embalada num produto bem mais atraente do que o esperado.





