17 jul 2026 11:56

Alisson Amador lança «Quarto Universo» com 12 faixas gravadas em Heliópolis

Alisson Amador lança «Quarto Universo» com 12 faixas gravadas em Heliópolis

Compositor e multiartista de São Paulo, Alisson Amador chegou ao segundo álbum da carreira com um projeto inteiramente caseiro: doze faixas autorais, todos os instrumentos tocados por ele mesmo, tudo gravado em seu apartamento em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. O disco se chama «Quarto Universo» e carrega uma mensagem clara contra a lógica do efêmero que domina a produção cultural na era das redes sociais.

Um músico, muitos instrumentos

Amador não chegou à multifuncionalidade por acaso. A relação com os instrumentos começou aos dez anos, quando pegou pela primeira vez um teclado. Desde então, passou pelo banjo, mergulhou no rock com a guitarra, tocou percussão na orquestra do Instituto Baccarelli e estudou violão clássico na Emesp, a Escola Municipal de Música de São Paulo. É um percurso de mais de duas décadas acumulando repertório técnico.

Com mais de 500 composições no catálogo, o artista tem clareza do que o move. Gravar o álbum em casa não foi uma limitação, e sim uma escolha consciente. «Enquanto isso, eu vou gravar o álbum em casa», conta ele, questionando o retorno real que a produção compulsiva para as redes trazia à sua carreira.

Homenagens a Ailton Krenak e Zahy Tenharã

O álbum não é só música instrumental: ele carrega um posicionamento. Entre as doze faixas, duas são dedicadas a figuras indígenas centrais na discussão contemporânea sobre identidade e território. Ailton Krenak, filósofo e líder do povo krenak, já havia inspirado Amador em seu primeiro trabalho, «Silêncio no Caos», de 2021, quando o artista musicou um poema do pensador.

Zahy Tenharã, ativista e artista do povo tenharã, entrou na trajetória de Amador de forma mais visceral. Ele a conheceu em uma peça de teatro dedicada à relação dela com a mãe. «É algo muito profundo, e eu saí de lá em lágrimas», conta ele. A homenagem no disco é, assim, mais do que um reconhecimento: é uma resposta emocional transformada em canção.

Resistência ao imediato

«Quarto Universo» chega em um momento em que a indústria fonográfica independente enfrenta a pressão dos lançamentos contínuos e fragmentados. Singles, playlists, conteúdo para os Stories: a lógica das plataformas favorece o fluxo constante em detrimento da obra íntegra. Amador vai na direção oposta. Um álbum com estrutura, identidade e profundidade, criado em casa, em uma das maiores favelas da América Latina.

Esse gesto tem peso simbólico. Heliópolis, com cerca de 200 mil habitantes, raramente aparece como um polo de produção artística nas narrativas culturais da cidade. «Quarto Universo» coloca o bairro no mapa, não como cenário, mas como estúdio.

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